Êxodo
Fevereiro 27, 2008
Longe…
Quando os primeiros daqui foram pra longe, trabalhar pros lados de São Paulo, gente toda duvidou. Diziam que capiau feito esses daqui iam arrumar serviço nenhum em cidade grande que nem aquela. Quando voltaro uns dez anos depois, vinha gente de tudo quanto é lugar aí pra riba pra fazer visita, agrado, pedir bênção.
Os três chegaram assim, diferente, bonito. Terno como não se via, sapato lustrado, cabelo bem cortado e penteado. Naquele tempo meu filho, isso era coisa de gente de posse. Os antigos andavam todos de pé no chão. Ternim que se tinha era só pra domingo de igreja e suava muito pra comprar. Sapato mal se via - ah! Ganhei meu primeiro quando já era homem feito, dezessete anos completos.
Morada nossa era barreada, casa simples, como o senhor ainda pode ver pelas roças longe afora - telha de coxa ou sapé pra cobrir, armada de madeira e taquara. Vê, quem vai morar nisso hoje? Só se usa pra rancho. Mas nem ruim era. Casinha dessa era fresca e, se bem cuidada, aguentava o tempo.
Povo morria assim de coisa boba também. Médico era raridade. Agora fome tinha pouca, só coisa de seca. Cabou tudo, aquela fartura… Vê, quem vai plantar roça hoje? O senhor? Meus neto? Cabo de enxada sobrou pra gente analfabeta de todo… resto quer escola, ofício que pague, carteira assinada. Sol na moleira é desaprovado… Ainda planto meu feijão, que fique gravado, meu milho também. Cana só parei porque rapadura findou, nem pra despesa vale à pena. Adianta?
Mas o negócio que te digo é… quando os três pisaram pras bandas de cá travez foi aquele alvoroço. Daí um mês, dois, três, foi se indo os novo. E daí não se parou de ir mais… até eu fui, como já lhe contei. Trabalhei em fábrica de tudo: pneu, enlatado… coisa que nem aqui se via. Depois passei a motorista. Dez anos mais tarde comprei quela Rural, sucata que o senhor viu ali fora. Voltei. Dirigir aqui dava um dinheirinho…










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